December 25, 2002

Adeus, Há que se pensar!

Luiza Gianesella agora posta no Disúria e Distúrbios Disentéricos.

November 03, 2002

Demorou mas escrevi algo por aqui... não ficou lá essas coisas, mas acho que abre possibilidades... ou fecha?

Não sei, vamos ver.
Gerda, com um grito de horror estagnado na garganta, começou a correr freneticamente na direção oposta. Não foi uma arrancada muito silenciosa, mas isto não importava. Mesmo que Gerda libertasse seu grito, não seria ouvida. Roland grritava tão alto que não era possível ouvir nenhum outro som.

Apesar de saber que deveria voltar e fazer algo ou, dada sua insignificância em termos de habilidade no manejo das armas em relação a Kai, pelo menos ficar para ver o que aconteceria, Gerda não teve forças para tal. Ela apenas corria sem saber para onde. Aquilo poderia significar a ruína do plano do qual participava ativamente. De repente, Gerda se viu à beira de um penhasco. Lá embaixo, cintilando sob a luz da lua cheia e em meio às grandes pedras, as ondas do mar iam e vinham. Ela permaneceu estática durante um bom tempo. O vento batia no seu rosto e nos seus cabelos desarrumados e o silêncio era - ou parecia ser - total. A vontade de pular crescia dentro dela. Parecia-lhe a saída mais fácil para seus problemas, o ponto final a uma situação absurda.

E pulou. Durante os poucos segundos da queda, o silêncio parecia-lhe ainda mais profundo. Na verdade, parecia-lhe que seus sentidos todos estavam minimizados, exceto a visão. As pedras se aproximavam e a água ia e vinha silenciosamente.

Na manhã seguinte, Timóteo acordou com o corpo, os cabelos e os olhos cheios de areia. Os ventos da noite anterior haviam enchido a barraca improvisada de areia. Leda e Marco dormiam profundamente, o pássaro, como sempre, estava no mais profundo silêncio. O garoto saiu da barraca puxando Beowulf pelo rabo, como de costume.

- Vem, Beowulf. Você também está cheio de areia.

Ao contrário da maioria dos bichanos, Beowulf não era avesso a água. Pelo contrário. Durante a viagem, Timóteo teve de segurá-lo para mantê-lo dentro do barco. Uma vez, o gato escapou e Timóteo teve de pular na água para que o gato não se afogasse.

O garoto tirou suas roupas e mergulhou no mar. A água estava límpida e com uma temperatura agradável. Beowulf molhou as patinhas e começou a andar por sobre os rochedos que invadiam a água, perto dali. Alguns minutos depois, preocupado com seu gato que não dava as caras já fazia algum tempo, Timóteo nadou na direção dos rochedos e, com dificuldade, ficou em pé em cima de um deles que oferecia uma segurança relativa. Apertando os olhos, o garoto viu um rabinho malhado sacudindo-se ao longe e, muito cautelosamente, andou até ele. Chegando ao local, viu não só Beowulf como também um corpo estilhaçado nas pedras.


October 19, 2002

Gabriel...

Ficou ótimo... não vou escrever nada agora porque me faltam os "lampejos", mas em breve venho aqui de novo!
O som das ferraduras se encontrando com os pedregulhos que forravam a estrada era hipnotizante; Kai seguia de cavalo a uma velocidade alucinante, rumo às praias do sul de Vaelion. Em seu íntimo sabia que encontraria Roland - e com um pouco de sorte, Gerda. Pensava alto, o vento refrescando seu corpo em fúria, mas não suas idéias:

- Eu sei... Eu sei de todos eles. Corja de assassinos... Morton, Gerda, e provavelmente Roland. Cão maldito, forjou a própria morte só para não despertar suspeitas ao matar o meu pai... Traidor! É isso o que ele é, um traidor do reino, traidor da confiança do meu pai! Ah, Roland, você me paga... E o velho leproso... Outro que merece ser banhado em óleo fervente! A Tríade deve deixar de existir... Nem que para isso eu precise matar Morton e Jo pessoalmente... E Gerda... Gerda. Afogarei Gerda! Arrancar-lhe-ei os olhos e darei de comer aos abutres!

E o galope furioso continuava. Kai sabia onde encontrar Morton: o único local que lhe vinha à mente era a Baía. Tratava-se do ponto de menor distância entre Vaelion e Faeton, a Planície. Roland e Archibald lutaram juntos contra a invasão bárbara há muitos anos, e desde a vitória do rei os barcos oriundos da Planície misteriosamente deixaram de chegar à ilha. Era um local que significava muito para Roland, e se havia um local onde se refugiara, Kai estava certo de seria lá e apenas meia hora de galope o levaria a seu destino.

Roland já atravessara um espesso corredor pela floresta: as árvores derramaram muitas folhas pelo chão, e caminhar rápido era uma tarefa mais trabalhosa do que o usual, mesmo para o guerreiro. Por entre as copas das árvores, Roland observava vultos em movimento, mas não deu importância a eles: eram sombras altas, acompanhadas de cavalos, e que emitiam ruídos intensos. Passou a caminhar com mais cuidado, pois tinha a certeza de que uma companhia da guarda real o procurava.

Já caminhava há vinte minutos quando um brilho ao longe lhe ofuscou a visão por um instante: a insígnia real brilhava sobre a testa do cavalo que carregava Kai. Roland olhou ao seu redor e rapidamente se jogou atrás de um arbusto: os espinhos lhe rasgaram a pele em vários lugares, mas ele tinha certeza de que a teria escaldada se Kai o encontrasse - tratava-se de um formidável guerreiro, até mesmo para seus padrões.

Kai se aproximava rapidamente, e a pele de Roland gotejava sangue em quase todo seu torso. Suas roupas estavam completamente rasgadas, mas seus ferimentos não eram profundos: de qualquer forma, uma poça de sangue começava a se acumular sob seus pés e mãos, que estavam unidos ao chão como se estivessem pregados. O cavalo diminuiu a velocidade.

Olhou para o chão e viu folhas pisadas. O pânico começou a tomar-lhe conta do corpo, que sangrava mais e mais. Tremia, e sacou a espada assim que viu o cavalo parado do outro lado do arbusto. Kai notou as folhas pisadas, e já tinha certeza de que encontrara sua presa - de uma forma inata, Kai sabia que Roland passava por lá, que estava escondido em algum lugar próximo e que sentia medo.

- Roland! - gritou Kai, enquanto afrouxava a corda que lhe prendia o Sol Nascente ao antebraço. Olhou atentamente ao seu redor e viu um filete de sangue escorrendo pelo arbusto. Era o indício que faltava: com um movimento brusco, arremessou sua arma bem ao centro da planta, mas o som da lâmina cortando o mato se misturou com um estalo agudo - Roland pulou para trás e interceptou o projétil com uma espadada certeira: o Sol Nascente voou de volta a Kai em grande velocidade, atingiu uma grossa árvore e atravessou-lhe metade do tronco.

- Roland! Você é rápido. Uma pena que tenho uma surpresa para você, seu imprestável! - a voz de Kai era impetuosa, cheia de rancor e vingança. Antes que Roland pudesse esboçar qualquer reação, Kai enfiou a mão em seu bolso e sacou uma esfera de metal brilhante, do tamanho de um ovo de pata. O artefato descreveu uma parábola no céu e Roland cortou a esfera ao meio prontamente, ao que um líquido com brilho ígneo atingiu sua espada e respingou em sua mão. No instante seguinte, restava apenas o cabo de sua arma e sua mão já não tinha os três últimos dedos: tratava-se de um ácido poderosíssimo, confeccionado pelos mestres-armeiros do rei para a invasão à planície. Roland caiu ao chão, castigado por uma dor sobrehumana.

A poucos metros, Gerda observava a cena, horrorizada.

October 14, 2002

Com as atenções voltadas principalmente para o seu braço e, acima disso, seus pensamentos, Roland não se deu conta de que uma curiosa embarcação despontara no horizonte e se aproximava com rapidez impressionante. Perdido nos seus pensamentos e na dor que lhe corroía o braço, só percebeu a chegada dos tripulantes à praia quando estes já pisavam a terra firme, carregados com sua estranha bagagem.

Para não ser visto, Roland correu bosque adentro, já que a árvore em que estava recostado era perto o bastante do mar para que pudesse ser visto. Mas, para seu azar ou sorte, seu pé ficou preso em uma raiz que saltava para fora da terra e ele caiu, batendo fortemente a cabeça. Tonto, mas ainda consciente, só pôde ver três cabecinhas ruivas à sua volta, falando coisas que soavam apenas como sons ecoantes para Roland, antes de desmaiar.

Quando acordou, Roland se viu estendido na praia sobre um pano estampado. Sua cabeça doía e, ao levar a mão até ela, sentiu que havia sido enfaixada e achou melhor deixar como estava. Um cheiro desconhecido exalava de seu ferimento no braço, mas a atadura havia sido cuidadosamente refeita e a dor havia se abrandado. Olhando ao redor, Roland viu que, logo na entrada do bosque, a poucos metros de onde ele estava, havia sido construída uma cabana muito simples. Ao lado da cabana jazia toda a bagagem que os viajantes traziam com eles quando ele os avistara ao longe.

O sol estava bem alto, já devia passar de meio-dia, e Roland se lembrou de Gerda, que a essa altura deveria estar procurando por ele para, dentre outras coisas, aliviar o peso de sua consciência por ter incriminado alguém que não tinha nada a ver com a conspiração nojenta na qual entrara. Levantou-se, portanto, com algum esforço, e ainda cambaleante andou na direção do bosque. Passou pela cabana toscamente construída procurando fazer o mínimo de barulho, mas quando estava bem em frente à entrada, uma cabecinha vermelha despontou em meio às folhas. Com seus olhinhos curiosos, que estavam sendo esfregados por pequenas mãozinhas sardentas, a criaturinha perguntou do alto de sua ingênuidade:

- Bom dia, senhor. Como vai a cabeça?

Roland não viu mal algum em responder àquele pequeno ser.

- Bem melhor, garoto. Ainda dói um pouco, mas há de melhorar.

- Ótimo - disse Marco, arrastando-se para fora da cabana - E o braço? O senhor tinha um ferimento e tanto aí nesse braço.

- Não sei o que passaram nele, mas não dói mais.

- Espero que o senhor não tenha ficado bravo de termos deixado o senhor dormindo ao relento, senhor, mas é que nossa cabana não era grande o suficiente para abrigar a nós e também ao senhor, senhor.

Roland pensou nas diversas vezes em que já havia dormido ao relento, por vontade ou necessidade. Parou um pouco, com os olhos na copa da árvore mais próxima. Depois voltou a si.

- Não foi nada. Obrigado - e saiu andando na direção da clareira da qual viera.

Marco olhou para o sol que brilhava por entre as copas das árvores e decidiu voltar para a cabana e dormir mais um pouco. Uma viagem de quatro dias pelo mar era bem cansativa para um pequeno de 10 anos.
Já fazia uma noite desde que Roland assassinara aquele que já fora um amigo. Estava encostado em uma árvore, a brisa do mar movendo seus cabelos grisalhos. Um filete de luz descia da lua crescente e iluminava a água em uma coloração esverdeada, e a tranqüilidade da situação chegaria a lhe provocar sono se sua situação fosse mais cômoda: caminhara a tarde toda em direção ao sul da ilha, até atingir a costa, e seu machucado doía horrivelmente. Retirou a sutura e viu que seu braço assumira uma coloração roxa.

- Maldição. - disse Roland. Precisava de cuidados, não dos imbecis que trabalhavam na corte - imprestáveis capazes apenas de fazer sangrias e extirpar furúnculos - mas sim de alguém que fosse capaz de lhe preparar um remédio razoável. O vento frio batia em seu machucado, e o sal presente no ar tornava a dor ainda mais insuportável. A essa hora - pensou ele - Gerda já deve ter deixado a cabeça de Archibald sob as terras de algum coitado, e é capaz que ele já tenha sido preso pela guarda real. Logo o reino teria alguns mortos, e tudo voltaria à normalidade.




Gerda se aproximou de um casebre de madeira, as luzes já apagadas pois a noite ia alta. O cheiro da cabeça de seu pai era acérrimo, mas essa missão poderia ser realizada por ela somente. Estava cansada de andar, pois não pôde escolher um dos cavalos na estrebaria para não levantar suspeitas.

O casebre estava cada vez mais próximo. Viu que a janela estava aberta: ninguém, naquela terra abatida pela miséria, seria insensato a ponto de usar cadeados. Os poucos pertences dos camponeses eram comuns a todos, constituindo-se em maior parte de ferramentas e uns poucos utensílios domésticos. O parco dinheiro era guardado dentro das roupas dessas pessoas, e provisões eram compartilhadas, embora o reino tomasse quase todos os grãos que produziam. Gerda sentia nojo da situação: nojo de si, por estar metida em uma conspiração; nojo do povo sujo que se curvava a seu pai; nojo da idéia de desposar Morton em um futuro próximo; e, em um sentido mais restrito da palavra, nojo do cheiro horrível que emanava da sacola.

Abriu a janela. O rangido, apesar de intenso, não acordou a família que vivia na casa. Estavam todos cansados de tanto trabalho, privação e decepção. Gerda rapidamente abriu a sacola de cabeça para baixo, deixou que a cabeça do rei rolasse casebre adentro e partiu em disparada, antes que o fedor fizesse com que os coitados acordassem.




No castelo, a porta do quarto de Gerda não se movera o dia todo. Durante o dia, as amas tentaram levar comida à princesa, sem sucesso. Era de se esperar - a porta do quarto estava trancada, e Gerda saíra em segredo do castelo na noite em que Roland degolou Archibald. Ninguém soube a respeito de sua ausência além de Morton. E passavam pelo corredor, ele e Josephine.

- Não vi a princesa hoje. Sua alteza deve estar chocada com o ocorrido. - disse a chefe da guarda de elite.

- Sim, está recolhida ao quarto e não permitiu nem que lhe penteassem os cabelos. - ripostou Morton. - Mas deixemos que ela passe esse momento sozinha, se desejar. É nosso dever respeitá-la nesse momento tão trágico.

- Não seja cínico. Ambos sabemos que ela não se importava com o pai. É provável que ela até mesmo desejasse sua morte, só para ascender ao trono.

- E você, o que pensa disso tudo?

- Não me importo com nada. - Josephine sacou a espada, uma característica peculiar de sua personalidade: quando se sentia nervosa, desembainhava sua arma e golpeava o ar. Pararam no meio do corredor, quase em frente à porta da princesa, e seus movimentos com a lâmina produziam silvos extremamente agudos e intensos. - Não me importo com o rei, que provocou tanto sofrimento ao povo nos últimos anos. Não me importo com o que acontecerá agora, e quero apenas continuar no comando da guarda de elite. Foi por isso que aceitei me tornar parte da Tríade, e não pretendo deixá-la.

- Você não a deixará. - retrucou Morton, prontamente. - Mas eu sim: logo deixarei a Tríade, e serão apenas você e Kai... Claro, supondo que a rainha Gerda me aceite como seu conselheiro particular. É, é uma tragédia o que ocorreu com o bom Archibald, mas não podemos nos abater.

- Não seja cínico, eu já disse. Até um idiota saberia que você é responsável pela morte do rei. Não que isso importe para mim, mas seu cérebro deve estar tão podre quanto sua pele.

- Que modos. Como eu dizia, você pode acabar suplantando a Tríade... Basta que Kai ceda suas tropas a você. Sabemos que seus soldados são os melhores, mas ele detém o comando da maior parte de nossas forças armadas... Veremos isso em breve, asseguro-lhe.

- Façam o que quiserem, não é problema meu.

E arrancou uma lasca da coluna à sua direita com um golpe de espada. Recolheu sua arma e continuaram andando pelo corredor escuro, mal iluminado pelas velas.

- E Kai? Você sabe dele? - disse Morton.

- Sim. Tomou o melhor cavalo da estrebaria e saiu, logo cedo. Desconfio que tenha decidido encontrar o assassino do rei pessoalmente... Não entendo como ele não atirou sua arma na sua cabeça podre, em vez de tê-lo feito na do pobre coitado que guardava a sala do trono. Sinceramente, o desaparecimento de Roland há um mês é tão suspeito que eu desconfiaria dele em primeiro lugar. Claro, eu posso estar errada e ele, morto, mas nunca se sabe.

- Manterei Kai sob vigia. Não quero que ele arruine tudo agora que a parte mais difícil foi feita. - e finalmente um esboço de um sorriso surgiu nos lábios de Morton.
Putz, ficou ótimo! :-)
Agora temos vários caminhos possíveis a seguir e personagens das mais diversas a desenvolver.

Muitas possibilidades abertas!

Só espero não ter viajado muito... manja, aquele espírito Tom Sawyer?
§:ob
Sentado na praia, um garoto que tinha por volta de 16 anos olhava o horizonte, que resplandecia com as cores diáfanas do pôr-do-sol. O astro deitava-se vermelho no mar à sua frente, só não mais vermelho do que os cabelos do garoto, mal arrumados e cheios de sal, que lhe caíam sobre o rosto. Suas calças já estavam esfarrapadas até os joelhos e, por falta de botões, sua camisa era obrigada a permanecer aberta. A pele clara do rapaz sofria sob o clima de Faeton, mas os muitos anos de exposição ao sol já haviam feito com que ele se acostumasse a sentir a pele repuxando e depois vê-la descascar.

Ao seu lado, uma bagagem interessante: uma trouxa improvisada com um tecido estampado e um galho de árvore, um barril cheio de carne salgada, vinda de pequenos animais que ele mesmo havia caçado na noite anterior, uma grande moringa cheia de água fresca e um gato malhado e magro, chamado Beowulf. Além disso, havia um porta-jóias desgastado pelo tempo, mas que ainda tocava uma música melodiosa quando aberto. O garoto estava cansado. Haviam sido diversas viagens para trazer tudo aquilo de sua cabana para a beira do mar.

Ao longe, surgiram duas figuras igualmente carregadas de bagagem. O garoto forçou os olhos para ver seus companheiros chegarem. Uma garota alta que tinha a sua idade vinha arrastando um baú maior do que seu companheiro, um garoto de pouco mais de 10 anos, cuja cabeça desaparecera em meio à tralha que carregava. Havia lá até mesmo uma gaiola enferrujada com um pássaro que não cantava, chamado, exatamente por causa disso, Silêncio. Eram seus irmãos que chegavam.

Poucos minutos depois, os dois paravam ofegantes junto ao garoto, que já se levantara e, com Beowulf trançando-lhe as pernas, cumprimentou-os.

- Leda, Marco, Silêncio. Já não era sem tempo.

Os garotos livraram-se da bagagem e caminharam até uma pequena gruta ali perto. De dentro dela, com muito esforço, tiram uma curiosa embarcação. Um pouco mais elaborada do que uma jangada, com um mastro central e remos. Arrastaram-na até a praia e começaram a carregá-la com a bagagem. Incrivelmente, a embarcação não cedeu ao peso, nem mesmo quando os três garotos subiram. O Comandante Timóteo empurrava a margem utilizando-se de um remo e, com a outra mão, puxava Beowulf pelo rabo para convencê-lo a subir.

- Agora navegaremos durante quatro dias em mar aberto até chegarmos à misteriosa ilha! - dizia, confiante e fantasioso.

- Timóteo, pare com as brincadeiras. O que esta viagem menos terá será diversão - completou Leda, enxugando o suor de seu rosto e tirando os cabelos ruivos da frente da visão. Apesar de terem exatamente a mesma idade - eram irmãos gêmeos - a garota havia sido obrigada a amadurecer rapidamente, pois sua mãe adoecera e as tarefas domésticas ficaram a seu encargo.

- Ora, Leda! Pode-se colocar um pouco de fantasia em tudo, não? É lógico que é nosso dever, depois da morte da mamãe, procurarmos o papai, e sabemos que ele partiu em mar aberto, pela rota que devemos seguir, há muitos anos, para nunca mais voltar. Teríamos de fazer isso com a mamãe, mais cedo ou mais tarde, se ela não morresse. Afinal, os recursos deste fim-de-mundo não durariam muito mais tempo. Mas, de qualquer maneira, podemos fingir que somos piratas! Não é, Marco?

O garoto apoiou o irmão mais velho, e os dois encenaram uma batalha de espadas, utilizando-se de pedaços de galho, enquanto a garota abria o mapa que um dia pertencera a seu pai, mostrando a localização de Vaelion, a "misteriosa ilha" para a qual ele havia saído quando ela ainda era apenas uma criança. Leda sabia se guiar pelas estrelas desde o dia em que se perdeu na área montanhosa e aprendeu a fazê-lo por necessidade. Dentro de um pequeno baú, trazia instrumentos primitivos toscamente construídos por ela própria, com os quais pretendia fazer as medições que os levariam àquele local sobre o qual não tinham nenhuma informação. Mal sabiam eles que chegariam na época mais conturbada possível - o Rei acabara de morrer.
Acho que isso dá uma boa idéia do que esperar daqui pra frente. :-)

Mais personagens fariam bem à trama, deixo isso para você (se desejar).
Acordou às onze horas: apenas o cheiro da grama molhada testemunhava a chuva que ocorrera na noite passada. O sol já ia alto, o céu estava limpo, e o homem se levantou, com o braço enrijecido. A sacola ainda estava lá - nenhum viajante teria a empáfia de abri-la - e o local, uma clareira escondida na parte mais profunda da floresta, provia o abrigo que lhe permitiu a noite de sono de que precisava. Ouviu passos, mas não sacou sua espada.

- Roland. - disse a mulher, trajada com um robe marrom, tão sombrio quanto seu rosto.

- Princesa Gerda. A cabeça de seu pai está nessa sacola, faça bom uso dela. - retrucou Roland, com uma mesura contida e uma expressão inócua no rosto.

Abriu a sacola, pôs o crânio real em suas mãos, e o atirou aos pés da mulher - agora rainha. A cabeça ensangüentada rolou pela grama, desprendendo gotas d'água pelo caminho, e um olor fétido fez com que a moça se sentisse enojada. Não pela cabeça ser de seu pai, não pelo cheiro em si, mas pelos rumos que a conspiração tomara. Nunca imaginara ela que acabaria por ordenar a morte do próprio pai, muito menos para que Morton, o conselheiro e parte da Tríade, pudesse desposá-la e subir ao trono. Era um velho destruído pelo tempo, leproso, mas extremamente inteligente, perspicaz - e sórdido. Foi testemunha da ascensão do rei, quando a ilha era dominada por bárbaros e faltava às pessoas a presença de alguém forte.

Essa força foi encontrada em Archibald. Estava cercado pelas pessoas certas: Morton, que já fora um grande guerreiro, e Roland, o responsável por sua morte e que foi seu melhor amigo até pouco tempo, quando sua sede por poder passou a se tornar uma ameaça. Archibald subiu ao trono apoiado pela burguesia - afinal, um domínio unificado seria extremamente vantajoso para o comércio - mas nos últimos meses os ímpetos do rei se voltavam para o continente, embora nenhum louco o fosse suficientemente para dominar a Planície. Sabe-se que o lugar carrega uma estranha força, que já provocou a ruína de muitos, mas nada além disso.

Gerda, Morton e Roland perceberam que o Rei planejava algo - de súbito, as docas do reino tornaram-se locais de produção de navios (uma prática abandonada há séculos, justamente para evitar a comunicação com a Planície). Passaram a planejar a morte do rei: Gerda se tornaria a Rainha (pois Kai era filho adotado de Archibald) e Morton, seu conselheiro. Entrementes, eis que Morton revelou ter planos diferentes. Descobrira, por obra do acaso, que Gerda tivera um amor proibido: definitivamente alguém que provocaria um grande descontentamento no reino. Ordenou que o amante de Gerda fosse preso no calabouço do castelo e propôs que Gerda o desposasse em troca do segredo mantido. Graças à fraqueza oculta no amor, a princesa se viu obrigada a fazer mais do que desejava: não se incomodava em assassinar o próprio pai, a quem considerava um canalha, mas talvez o preço a se pagar pelo reino fosse maior do que estava disposta de início.

- Gerda. - chamou-lhe a atenção Roland. A moça tinha se perdido novamente em devaneios. - A cabeça deve ser levada para a casa de algum camponês. Mande que a guarda real investigue a casa: eles encontrarão a prova do crime, matarão a família do pobre coitado e lhe jogarão sal nas terras para que nem mesmo grama nasça no local. Faça isso rápido, pois estou certo de que Kai já ordenou buscas pela ilha.

Enquanto dava instruções a Gerda, rasgou uma tira de tecido de sua camisa e fez uma sutura digna do herói de guerra que era. O ferimento não mais sangrava, mas abriria novamente se Roland não tivesse certos cuidados: não deveria mover o braço, mas isso não lhe seria problema, pois manejava a espada com a mesma destreza à mão esquerda. Levantou-se, verificou se a sutura estava firme, e deixou Gerda sozinha no meio do bosque.

- Roland. Diga que tudo ficará bem. - a voz saía fraca de sua garganta.

- Não ficará, a menos que alguém pague pelo nosso crime. Livre-se da cabeça pessoalmente: o vilarejo mais próximo fica a dez milhas daqui, cinqüenta do castelo: você chegará lá à noite, o horário perfeito para fazê-lo sem que lhe percebam. Procurarei abrigo até que a guarda real encerre as buscas.

- Avise-me quando voltar...

- Adeus.

E foi embora, deixando Gerda a sós com seu pai, que lhe olhava com a mesma expressão de terror e espanto da noite anterior. Mal sabia Gerda que o preço o qual pagaria seria alto demais.
Ei, Gabriel...

Eu pensei em começar a apresentar os outros personagens, mas com o tempo você vai ver que a minha "qualidade técnica" é recheada de coisas implícitas. Às vezes, uma passagem como esta pode dizer muito mais sobre oS personagenS do que uma cena detalhada, com diálogos e enumeração de características... Talvez "dizer mais sobre o personagem" não seja a idéia certa... pode-se dizer "abrir uma linha de raciocínio" a partir de um detalhe ou outro. Vamos ver como a coisa vai se desenrolar!
§:o)
Tudo ótimo até agora. :-)

A qualidade técnica da Luíza está sensacional, mas acho que já falei o suficiente do Kai, e seria uma idéia melhor apresentar outras personagens. É isso o que vou tentar fazer agora.

October 13, 2002

Kai passava pesadamente pelo corredor que dava acesso aos quartos com o mesmo sorriso que o acompanhara na saída da sala em que a rápida e truculenta reunião acontecera. Os músculos de suas mãos estavam contraídos e as veias lhe saltavam do pescoço, mas seu andar era sereno e ritmado.

O pé direito do corredor pelo qual passava era enorme, só não era maior do que a extensão do mesmo, todo decorado em tons quentes. No seu lado esquerdo, pesadas cortinas de veludo piscavam a cada relâmpago; do seu lado direito, uma fila de armaduras estava exposta, cada qual com uma arma em punho. A luz era escassa e cada clarão da tempestade tornava cada nicho do recinto nítido, apesar das cortinas estarem todas fechadas. E Kai continuava com o mesmo passo metronômico.

No meio do corredor, Kai parou. Um raio que atingiu uma árvore do jardim do castelo, que já há muitos anos não recebia a visita de nenhum jardineiro, iluminou o rosto do general, que não mais ostentava o sorriso nervoso. Seu olhar, fixo no nada, permaneceu impassível quando todo o ambiente já estava escuro novamente e o som do trovão ecoava em seus tímpanos. Então Kai se virou, andou serenamente de volta até o início do corredor e correu desenfreadamente na direção oposta, com o braço direito estendido que, como se fosse feito de ferro puro, não se moveu um milímetro ao encontrar a primeira armadura. Assim, Kai derrubou, rapidamente e uma por uma, todas as armaduras da fila, por entre os esparsos lumes e retumbantes sons da tempestade. Ao final do imenso corredor, enquanto o ruído do último elmo ricocheteando no piso de mármore ainda ecoava, Kai parou ofegante com as mãos nos joelhos. Poucos segundos depois voltou à postura que lhe convinha e, com a mesma expressão de antes da destruição, percorreu os metros finais do corredor e dobrou à direita.

Morton e Josephine assistiram, atônitos, à triunfante e recolhida saída de Kai, que parecia engolir um impulso colossal que, caso não fosse descarregado nas armaduras, poderia trazer danos maiores. Morton se dirigiu a um guarda que também havia sido atraído pelo barulho:

- Arrume tudo isso. Se alguém, por azar, o vir e perguntar-lhe, fale que o culpado é Johann. Aquele bastardo nunca fez nada além de nos dar despesas.

O guarda não hesitou.

- Sim, senhor.

Josephine e Morton despediram-se solenemente e, em silêncio, seguiram para seus aposentos, ouvindo ao longe o barulho do guarda arrumando os escombros de um desequilíbrio interno.
Era meia-noite. Sob a penumbra da Lua nova, um homem carregava seus quarenta anos sob forte chuva. Andava apressado, com uma sacola que continha algo grande. Suas pernas, já cansadas pelo esforço, iam sujas de lama até os joelhos. Seu cabelo agrupava-se em mechas molhadas e pesadas, e sua roupa estava completamente encharcada. Um grande ferimento em seu braço direito denunciava seu local de origem: o rastro de sangue apontava na direção do castelo.

A incessante chuva e a escuridão da noite eram as grandes aliadas do homem naquela noite. Poucos minutos depois de sua saída do castelo, a Tríade soava o alarme: o rei estava morto. Fora encontrado degolado na câmara real, e sua espada, jogada em um dos cantos. Sabia-se que sua idade era avançada, mas isso nunca o impediria de aceitar um duelo: ao menos era o que se dizia no alto comando da Tríade. Sentaram-se ao redor de uma mesa, enquanto a alta guarda observava atônita a tragédia que se abatera sob o reino. Um jovem armava-se de forma estranha: dependurado em seu antebraço por uma corda havia um artefato pequeno, curvado e robusto, que lembrava um girassol e tinha lâminas afiadíssimas. A Tríade se observava, de forma grave, até que o silêncio foi quebrado pelo jovem general:

- Chamem o guarda responsável pela sala do trono.

E um homem cabisbaixo adentrou o aposento.

- Você estava montando guarda há quinze minutos? - perguntou Kai, com uma expressão de desprezo no rosto.

-Sim, senhor - respondeu o guarda.

O general se levantou, afrouxou a corda e atirou-lhe a arma contra a cabeça. O guarda caiu no chão no mesmo instante, enquanto os outros observavam em um misto de aprovação e pavor. Com passos longos, Kai caminhou pela longa sala em direção ao cadáver: ouvia-se apenas seus passos, com um eco insuportável. Aproximou-se do guarda desfalecido, arrancou a arma de sua cabeça e disse, reticente:

- Encontrem o responsável pela morte do rei... Agora.

E no instante seguinte a sala estava vazia. Restava apenas a Tríade: Kai, uma mulher e um velho envolto por um longo robe.

- Quem fez isso? - perguntou a mulher, enquanto sacava sua espada e lutava com o ar.

- Nós sabemos - retrucou o velho - Mas não é hora de encontrá-lo ainda. Kai, cancele a busca.

Mas Kai não esboçou qualquer reação. Sorriu, virou-se e saiu da sala, em um claro sinal de desrespeito em relação à alta guarda. Já ia alto pelo corredor quando a mulher finalmente guardou sua espada:

- Deixe estar, Morton. O idiota acaba de perder o pai, nem você será capaz de detê-lo.

E saíram da sala, enquanto o castelo fervilhava sob a chuva.
Opa!

E eu, que decidi cursar matemática para me tornar professor - justo professor. Depois de passar dois anos enfiado em meio a números e técnicas, veio a hora de voltar a escrever algo: afinal, preciso manter a sanidade por mais alguns anos. Espero que você, leitor, se divirta com essa história escrita aos poucos por pessoas que pensam diferente e podem - podem, veja bem - querer atrapalhar a "vez" alheia com artifícios sórdidos.

Não hesite em nos mandar um e-mail com sugestões ou comentários: escrevemos para nós mesmos, mas ouvir a opinião de alguém seria ótimo!

Um abraço a todos.

October 12, 2002

Buenas.

Eis que passei para o colegial, após um ginásio passado em diversas escolas diferentes, o que resultou em perda de matéria e uma situação conturbada. Apesar dos contratempos, durante todo o período tive professores e professoras que me apoiavam muito e corrigiam meus textos entendendo o que eu escrevia, entendendo o que eu queria dizer, e me dando a liberdade de me utilizar dos efeitos de sentido e figuras de linguagem que eu bem quisesse. Mas só até a oitava série.

Este ano, desafortunadamente, fui jogada às mãos de uma profissional incompetente, que rabisca meus textos de cabo a rabo com uma bic vermelha e tenta enquadrá-los aos moldes do vestibular. Minha produção literária caiu a zero.

Daí surgiu - mais do que a vontade - a necessidade da criação deste blog. Um estímulo para escrever bobagens, sabendo que nenhuma ignóbil vai riscar tudo com uma bic vermelha.

É isso.
Regras:

1) Ao completar um post, não importa o tamanho dele, o próximo post deverá ser obrigatoriamente de outra pessoa. Posts que não seguirem essa regra serão apagados;
2) Será permitido alterar um post apenas sob essas circunstâncias:
- Para corrigir erros gramaticais;
- Para alterar substancialmente parte do texto, mas apenas se se tratar do post mais recente;
- Se ambos estiverem de acordo quanto à alteração e ela não ocasionar incoerência na história.
3) Será permitido que se adicione comentários ao texto. Os comentários não estão sujeitos à primeira regra, podendo ser enviados a qualquer momento, mas deverão ser escritos em itálico.

Creio que é só. Bom divertimento!